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quinta-feira, maio 12, 2005

E NOSSOS RIOS, EM QUE ESTADO SE ENCONTRAM? Parte 1


Para verificar a saúde dos rios do País que tem um dos maiores estoques de água doce do planeta, Gerárd e Margi levaram mais de um ano. Depois de quase mil lugares visitados e 120 mil quilômetros percorridos, um alerta: a maior parte das águas do Brasil está doente. Desmatamento, garimpo, poluição por indústrias e pelo despejo de esgoto urbano e um conflito que vem se tornando padrão, o choque entre o excesso de demanda para a agricultura e para atender às grandes cidades, confirmam o fato de que os maiores males dos nossos rios são causados pelo homem.
O balanço final de o "Brasil das Águas" só deve ficar pronto em meados deste ano. Resultados parciais do estudo, no entanto, você acompanha mais de perto agora. Ao traçar o perfil de nossos rios, agrupados aqui em 12 regiões hidrográficas, contamos também com informações da Agência Nacional de Águas.
E destacamos o Tietê: o drama de um rio cuja função ficou restrita ao transporte de esgoto ganha maiores dimensões se colocado ao lado das águas límpidas de cidades como Londres, Roma e Nova York.

A função dos rios em grande parte dos aglomerados urbanos ficou reduzida ao transporte de esgotos. São rios cujas águas, escuras e mal cheirosas, se transformaram em uma substância muito diferente daquela que aprendemos na escola a descrever como insípida, inodora e incolor. O Tietê, em São Paulo, é um dos primeiros da lista desses "rios mortos". Se compararmos suas águas com as límpidas do
Tâmisa, em Londres, por exemplo, que já foi chamado de "Grande Fedor", a situação fica ainda mais dramática. Mas, por incrível que pareça, há quem encontre esperança no campeão da sujeira.

As águas do Tietê, em São Paulo

Em junho de 2003, Pirapora do Bom Jesus, a 54 km de São Paulo, ficou coberta de espuma. Ao contrário do que pode sugerir, não se tratava de um surto de limpeza. Era a sujeira, vinda do rio Tietê, que engolia a cidade. O fenômeno, contaram na época os habitantes, não era novo, mas daquela vez havia passado dos limites. Em alguns lugares, a espuma ultrapassava cinco metros de altura. Foram 30 dias de agonia. “Foi uma época de muita tristeza”, lembra o prefeito Raul Silveira Bueno Júnior. “Além da auto-estima do povo, a cidade perdeu também os turistas.”
Tendo a maior parte da renda proveniente do turismo, Pirapora atravessou uma crise. Os costumeiros 10 mil visitantes por fim de semana, vindos em romaria, foram reduzidos a dois mil. “No penúltimo fim de semana daquele mês, não veio ninguém”, conta Raul Bueno. “Isso nunca havia acontecido em toda a história da cidade”, relata.
Com 18 mil habitantes, Pirapora não possui hospitais, cinemas ou clubes e sequer tem time de futebol profissional. Mas carrega um título nada agradável. É lá, entre as margens do Tietê, perto do local onde foi encontrada há 280 anos sobre uma pedra a imagem que dá nome à cidade, que se localiza a água mais imunda do País, segundo a pesquisa do projeto "Brasil das Águas".
A água dali, na verdade, quase perde o direito de ser chamada como tal. Se transformou em uma substância muito diferente daquela que aprendemos na escola a descrever como insípida, inodora e incolor. É escura e repleta de nutrientes que formam uma cadeia viciosa: alimentam algas, que acabam com o oxigênio e deixam espaço para poucas formas de vida, como minhocas, larvas de insetos e as próprias algas.
O mal cheiro, quase insuportável, é outro sinal da podridão. “A grande quantidade de matéria orgânica e o pouco oxigênio favorecem a proliferação de bactérias que produzem sulfetos”, explica o professor Donato Seiji Abe do Instituto Internacional de Ecologia de São Carlos, em São Paulo, um dos pesquisadores do "Brasil das Águas". O sulfeto é razão do mal-cheiro que, mais do que desconforto, causa doenças na população. Segundo o prefeito Raul Bueno, 90% dos atendimentos nas unidades de saúde da cidade são por problemas causados pela poluição do Tietê.
Mas este quadro ainda é melhor do que aquele que, em 2003, assustou a cidade e o País inteiro. “Melhorou substancialmente”, diz o prefeito. “Hoje a altura da espuma não passa de 05, 10 centímetros, mas continuamos lutando porque a solução é a limpeza do Rio”, afirma.
Em seu terceiro mandato, Raul Bueno é natural de Pirapora do Bom Jesus. Na memória, ainda guarda os tempos em que, em pelo menos algumas partes, era possível pescar no Tietê. Enquanto tantas outras cidades pensam no futuro, Pirapora do Bom Jesus, pelo menos em relação à água, sonha com o passado. “Espero que nossa história sirva para conscientização, para que todos olhem o meio ambiente diferente. Todos somos culpados”, diz o prefeito.


Moradores de Bom Jesus de Pirapora convivem com a espuma que levanta do rio Tietê e que atravessa a cidade. Foto: José Luiz da Conceição/AE

Dos cerca de 600 km de extensão do Tietê, quase dois terços são poluídos. O rio nasce na Serra do Mar, em Salesópolis, de onde corre, por cerca de 100km, limpo. A quantidade de nutrientes presente na água até o local – relata Danilo – é bem baixa. “O problema é a Região Metropolitana de São Paulo”, conta o pesquisador. “Ali, os municípios tratam somente 20%, 30% do esgoto”, completa.
As obras para limpar o Tietê começaram em 1992. Treze anos e cerca de US$ 2,5 bilhões – divididos entre o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Companhia de Saneamento Público do Estado de São Paulo (Sabesp) - estão sendo empregados. São Paulo se prepara para entrar na 3ª etapa do projeto, mas ainda não viu muitos resultados. Segundo o Coordenador de Controle do Projeto Tietê, Marcelo Pampone, eles estão por vir. “No ano que vem, já começaremos a sentir alguns efeitos das melhorias”, explica. As cinco estações de tratamento previstas no Plano Diretor de Esgotos da Sabesp já estão prontas e está previsto para o segundo semestre de 2006 o começo do funcionamento de alguns coletores e interceptores – tubos subterrâneos com três metros e meio de diâmetro que recolherão o esgoto para despejá-lo em uma estação de tratamento e não no rio.
No entanto, a limpeza efetiva do Tietê, quando pelo menos 95% do esgoto será tratado, só deve acontecer daqui a 25 anos. Parece distante, mas não é. Para se limpar um rio, tão importante quanto a vontade política, os recursos e os produtos químicos, é a paciência.
A 400 km de São Paulo, o mesmo rio que cobriu de sujeita Pirapora, volta a abrigar águas limpas. Ao longo de seu leito, o Tietê tem vários reservatórios. Os maiores entre eles - Barra Bonita, Bariri, Ibitinga, Promissão, Nova Avanhandava e Três Irmãos - funcionam como uma espécie de lagoa de estabilização, um descanso para o rio. Ali, ele se autodepura, isto é, vai se limpando sozinho e se aproximando do que era ao nascer.
Atividades jamais imaginadas por quem mora na capital paulista se tornam possíveis naquela região. Em Nova Avanhandava - relata Danilo – a água já é azul. E na hidrelétrica de Três Irmãos - quem diria - tem até ponto de mergulho, para se ver a parte submersa da cidade de Pereira Barreto, encoberta pelo reservatório em 1990. No passeio é possível enxergar, debaixo da água, um mirante, uma ponte, um pequeno barco à vapor naufragado. Mas o que se vê é que há esperança. O Tietê ainda é um Rio bem vivo.

2 Comments:

At 1:19 PM, Anonymous Anônimo said...

Oi, Tuiuiús!!! Como estão? Animados para a próxima etapa?

 
At 1:57 PM, Blogger Ambiental Arte said...

Claro, a ansiedade vai tomando conta e a curiosidade também!!!

 

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